Mamífero Gigante Pode Ter Vivido Entre Dinossauros no Brasil Há 130 Milhões de Anos
Uma descoberta feita a partir de pegadas fossilizadas no Brasil está mudando o que os pesquisadores sabem sobre os mamíferos que viveram na época dos dinossauros. As marcas indicam que um animal surpreendentemente grande pode ter caminhado pelo território brasileiro há cerca de 130 milhões de anos.
As pegadas foram encontradas em rochas da Formação Botucatu e chamaram a atenção pelo tamanho. A análise sugere que o responsável pelas marcas poderia ter dimensões muito superiores às normalmente associadas aos mamíferos daquele período.
Mas que animal era esse? Qual poderia ser o seu tamanho? E como os cientistas conseguem descobrir tudo isso analisando apenas pegadas preservadas nas rochas? Neste artigo, vamos entender o que foi encontrado e por que essa descoberta pode ser tão importante para a paleontologia. Para conhecer outras descobertas e fatos interessantes, acompanhe também nossa seção de Curiosidades.
Onde foram encontradas as pegadas do mamífero gigante?
As pegadas fossilizadas foram identificadas em rochas da Formação Botucatu, uma formação geológica conhecida por preservar registros de um antigo ambiente dominado por extensas áreas arenosas.
Esses vestígios são chamados de icnofósseis — registros da atividade de organismos do passado, como pegadas, rastros e marcas deixadas no sedimento. Diferentemente de ossos fossilizados, eles podem revelar informações sobre como um animal se locomovia e interagia com o ambiente.
O que chamou especialmente a atenção dos pesquisadores foi o tamanho das marcas atribuídas a um possível mamífero. A partir das dimensões das pegadas e de comparações com outros registros fósseis, os cientistas puderam fazer estimativas sobre o tamanho do animal que teria produzido os rastros.
A descoberta é particularmente interessante porque os mamaliaformes da era dos dinossauros são frequentemente associados a animais de pequeno porte. Essas pegadas, porém, sugerem que pelo menos alguns deles podem ter alcançado dimensões bem maiores do que se imaginava.
Qual era o tamanho desse mamaliaforme pré-histórico?
As dimensões estimadas para o animal são justamente o que torna a descoberta tão surpreendente. As maiores pegadas analisadas chegam a aproximadamente 11,4 centímetros de comprimento e 13,4 centímetros de largura.
A partir do tamanho das marcas e do espaçamento entre elas, os pesquisadores estimaram que o animal responsável pelos rastros poderia alcançar cerca de 1,55 metro de comprimento. Essa estimativa chama atenção porque representa um porte considerável para um mamaliaforme que viveu durante o Cretáceo Inferior.
Os rastros também apresentam características compatíveis com um animal que se locomovia sobre quatro patas. No estudo científico, as pegadas foram classificadas na icnofamília Chelichnopodidae, com base principalmente em sua morfologia.
É importante, porém, não confundir uma estimativa com a descoberta do animal completo. Até o momento, são as pegadas fossilizadas que fornecem as evidências sobre esse possível mamaliaforme de grande porte, e não um esqueleto preservado. Por isso, características como sua aparência exata ainda não podem ser determinadas com segurança.
Como era o Brasil há 130 milhões de anos?
Há cerca de 130 milhões de anos, durante o Cretáceo Inferior, a paisagem onde hoje está parte do Sul do Brasil era muito diferente da atual. A região da Formação Botucatu fazia parte de um enorme ambiente dominado por campos de dunas e extensas áreas arenosas.
Foi nesse cenário que diferentes animais deixaram rastros sobre a areia. Em determinadas condições, essas marcas foram preservadas no sedimento e, ao longo de milhões de anos, transformaram-se nos registros fósseis encontrados atualmente nas rochas.
Os novos rastros mostram que os mamaliaformes também faziam parte desse ecossistema. E o tamanho das pegadas surpreendeu os pesquisadores justamente porque amplia a diversidade de portes conhecida para esses animais no início do Cretáceo.
Isso significa que, na mesma época em que os dinossauros habitavam os ecossistemas terrestres, animais próximos da linhagem dos mamíferos modernos também estavam presentes — e alguns deles podem ter sido consideravelmente maiores do que a imagem tradicional de pequenos mamíferos mesozoicos sugere.
Por que essa descoberta surpreendeu os cientistas?
Durante muito tempo, a imagem mais comum dos mamíferos e seus parentes próximos que viveram na era dos dinossauros foi a de animais pequenos, semelhantes em tamanho a musaranhos, ratos ou outros pequenos mamíferos atuais. Descobertas realizadas nas últimas décadas, porém, vêm mostrando que os mamaliaformes do Mesozoico eram mais diversos do que essa visão simplificada sugere.
As pegadas encontradas na Formação Botucatu reforçam essa mudança de perspectiva. Os rastros descritos pelos pesquisadores estão entre os maiores registros semelhantes aos de mamíferos conhecidos para o Cretáceo Inferior, indicando a possibilidade de um animal de porte muito superior ao esperado para o período.
Outro ponto importante é que não são conhecidos fósseis corporais de mamaliaformes em rochas do Jurássico ou do Cretáceo Inferior do Brasil. Isso torna as pegadas especialmente valiosas, pois elas registram a presença de animais que praticamente não aparecem no registro brasileiro por meio de ossos ou dentes.
A descoberta também mostra por que as pegadas fósseis podem complementar o estudo de esqueletos. Mesmo quando os ossos não são preservados, um rastro pode fornecer pistas sobre o tamanho, a postura e a forma de locomoção de um animal que viveu há milhões de anos.
Por enquanto, os pesquisadores mantêm cautela: as marcas são descritas como pegadas semelhantes às de mamíferos, e não como a descoberta de uma nova espécie conhecida por um esqueleto. Portanto, ainda existem perguntas importantes sobre quem exatamente deixou esses rastros.
Que animal deixou essas pegadas?
Apesar do tamanho impressionante das pegadas, os cientistas ainda não sabem exatamente qual animal deixou os rastros. Como não foram encontrados ossos associados diretamente às marcas, não é possível determinar uma espécie específica apenas com base nas pegadas.
A análise do formato dos rastros, no entanto, fornece pistas importantes. As marcas apresentam quatro dedos, impressões curtas e arredondadas e um padrão de caminhada compatível com um animal quadrúpede. Essas características levaram os pesquisadores a relacioná-las à icnofamília Chelichnopodidae.
Os autores consideram que o responsável provavelmente pertencia aos mamaliaformes, grupo evolutivo que inclui os mamíferos propriamente ditos e alguns de seus parentes próximos. Por esse motivo, é mais cuidadoso falar em um mamaliaforme de grande porte do que afirmar que uma espécie específica de mamífero foi descoberta.
Também não é possível reconstruir com precisão sua aparência apenas pelas pegadas. Características como pelagem, formato da cabeça, cauda e alimentação permanecem desconhecidas. Qualquer representação visual desse animal deve, portanto, ser entendida como uma reconstrução hipotética, e não como um retrato comprovado.
O que as evidências sugerem é que algum animal com características compatíveis com mamaliaformes caminhou pelas antigas dunas da região e deixou rastros excepcionalmente grandes para o registro conhecido daquele período.
Como os cientistas estimam o tamanho de um animal pelas pegadas?
Uma pegada fossilizada pode guardar muito mais informações do que parece. Os paleontólogos analisam características como comprimento e largura das marcas, distância entre os passos, disposição dos dedos e largura da pista para obter pistas sobre o animal que passou pelo local.
No caso dos rastros encontrados na Formação Botucatu, os pesquisadores estudaram duas pistas identificadas como UERJ IC-170 e UERJ IC-171. Além das grandes dimensões das pegadas, eles observaram dedos curtos e arredondados e uma pista relativamente estreita, características compatíveis com a locomoção de um animal quadrúpede.
A distância entre as pegadas também ajuda a compreender como o animal se movimentava. Combinando essas medidas com comparações de outros rastros e animais conhecidos, os pesquisadores conseguem fazer estimativas sobre as proporções e o porte do produtor das pegadas.
Essas estimativas, porém, possuem limitações. O formato de uma pegada pode ser influenciado pelo tipo de sedimento, pela umidade da superfície e até pelas alterações ocorridas depois que o animal passou pelo local. Por isso, os próprios pesquisadores destacam que a identificação de quem produziu um rastro fóssil deve ser feita com cautela.
É justamente a combinação entre medidas, anatomia das marcas, padrão da pista e contexto geológico que permite transformar algumas pegadas preservadas na rocha em pistas sobre um animal que viveu há aproximadamente 130 milhões de anos.
O que essa descoberta muda sobre os mamíferos da era dos dinossauros?
A descoberta ajuda a questionar uma imagem que durante muito tempo dominou as representações da era dos dinossauros: a de que os mamíferos e seus parentes próximos eram quase sempre animais pequenos e pouco diversificados.
O registro fóssil encontrado nas últimas décadas já vinha mostrando uma realidade mais complexa. As novas pegadas brasileiras acrescentam outra evidência importante, sugerindo que mamaliaformes de porte consideravelmente maior também podem ter existido no Cretáceo Inferior.
Segundo os pesquisadores, os rastros da Formação Botucatu ampliam a faixa de tamanho conhecida desses animais e sugerem que corpos maiores podem ter evoluído mais cedo e com maior frequência do que se reconhecia anteriormente.
A descoberta também evidencia uma limitação importante do registro fóssil. Nem todo animal que existiu deixou ossos preservados. Em determinados ambientes, pegadas e outros vestígios podem revelar organismos que praticamente desapareceriam da história se os cientistas dependessem apenas de esqueletos.
Por isso, o achado brasileiro não significa que os cientistas tenham encontrado definitivamente “o maior mamífero da era dos dinossauros”. O que as evidências mostram é algo mais cuidadoso — e cientificamente muito interessante: a diversidade de tamanho dos mamaliaformes daquele período pode ter sido maior do que o registro fóssil conhecido até agora sugeria.
Perguntas frequentes sobre o mamífero gigante encontrado no Brasil
Qual era o tamanho do mamífero que deixou as pegadas no Brasil?
Estimativas divulgadas a partir da análise dos rastros indicam que o animal poderia alcançar cerca de 1,55 metro de comprimento, porte comparável ao de um cachorro grande. As pegadas chegam a aproximadamente 13 centímetros de largura, dimensões excepcionais para registros atribuídos a mamaliaformes desse período.
É importante destacar que nenhum esqueleto desse animal foi encontrado associado aos rastros. Por isso, seu tamanho corporal é uma estimativa baseada nas pegadas e nas características da pista, e não uma medição direta de um fóssil corporal.
Onde as pegadas foram encontradas?
Os rastros estudados foram encontrados em uma pedreira no município de Turvo, em Santa Catarina, em rochas pertencentes à Formação Botucatu, na Bacia do Paraná. Os exemplares analisados receberam as identificações UERJ IC-170 e UERJ IC-171.
Quantos anos têm as pegadas?
As pegadas pertencem à Formação Botucatu e ao Cretáceo Inferior, período em que os dinossauros ainda habitavam o planeta. A região fazia parte de um extenso ambiente de dunas existente no antigo continente de Gondwana.
Era realmente um mamífero?
Os pesquisadores atribuem os rastros a um provável mamaliaforme, termo que abrange os mamíferos e parentes muito próximos de sua linhagem evolutiva. Como a identificação é baseada em pegadas, e não em um esqueleto, não é possível determinar com segurança a espécie que produziu os rastros.
Esse foi o maior mamífero que viveu na era dos dinossauros?
Não é possível afirmar isso. O estudo descreve essas marcas como as maiores pegadas semelhantes às de mamíferos documentadas no Cretáceo Inferior de Gondwana. Isso não significa que o animal responsável tenha sido comprovadamente o maior mamífero de toda a era dos dinossauros.
O animal viveu junto com os dinossauros?
le viveu durante o Cretáceo Inferior, portanto em uma época em que os dinossauros habitavam a Terra. A própria Formação Botucatu preserva outros tipos de rastros de vertebrados, incluindo pegadas atribuídas a dinossauros. Isso, porém, não significa que exista evidência de interação direta entre esse mamaliaforme e uma espécie específica de dinossauro.
Conclusão
As pegadas encontradas na Formação Botucatu mostram como alguns rastros preservados por milhões de anos podem transformar o que sabemos sobre a vida no passado.
As evidências sugerem que um mamaliaforme de porte incomum para o Cretáceo Inferior pode ter caminhado pela região onde hoje está o Sul do Brasil há cerca de 130 milhões de anos. Com comprimento corporal estimado em aproximadamente 1,55 metro, o animal seria muito maior do que muitos dos mamaliaformes normalmente associados à era dos dinossauros.
A descoberta, porém, ainda guarda muitos mistérios. Sem um esqueleto associado às pegadas, não é possível saber exatamente qual espécie produziu os rastros nem reconstruir sua aparência com precisão.
Mais do que revelar simplesmente um “mamífero gigante”, o achado ajuda a mostrar que os mamaliaformes que viveram durante a era dos dinossauros podem ter apresentado uma diversidade de tamanhos maior do que o registro de fósseis corporais sugeria.
E talvez essa seja a parte mais interessante da descoberta: depois de aproximadamente 130 milhões de anos, algumas pegadas preservadas nas rochas brasileiras ainda são capazes de revelar novas peças da história da vida na Terra.
Fontes e referências
As informações deste artigo foram elaboradas com base no estudo científico que descreveu as pegadas da Formação Botucatu e em materiais complementares sobre a descoberta. Como novas pesquisas podem ampliar ou revisar a interpretação desses rastros, algumas conclusões ainda podem mudar com futuras evidências.
Buck, Pedro Victor et al. — Remarkably large mammal-like tracks from the Botucatu Formation (Lower Cretaceous), Paraná Basin, Brazil: implications for the evolution of large size in Mammaliaformes
Journal of South American Earth Sciences, 2026.
DOI: 10.1016/j.jsames.2026.106223
UOL — Pegadas descobertas em SC sugerem maior mamífero da era dos dinossauros
Reportagem sobre a pesquisa, com informações e declarações dos pesquisadores responsáveis pelo estudo.
